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Jantar Sobre Trilhos: Pullman Restaurant em Galway, Um Trem Que Não Parte, Mas Leva

Por Thalita, curadora e cofundadora da VOYA COLLECTIONS

Dentro de vagões restaurados da era Eduardiana, um jantar entre taças, trilhos e memória ferroviária.

Antes mesmo de provar o primeiro prato, eu já estava encantada.
Jantar no Pullman Restaurant, parte do fabuloso Glenlo Abbey Hotel, não é apenas uma experiência gastronômica — é um embarque íntimo num tempo em que viajar era um evento e comer, um ritual.

Os vagões estacionados no jardim do hotel são originais do Orient Express, restaurados com cuidado artesanal: estofados em veludo vinho, madeira escura polida, luminárias douradas e janelas que emolduram o crepúsculo irlandês como se fosse um quadro vivo.

Entrei no vagão com a mesma reverência de quem entra num santuário.
Tudo ali sussurrava história: o ranger do piso, o som abafado da louça, a luz baixa que parecia saída de um filme noir.

Uma Locomotiva de Sabores 

Fui conduzida à minha mesa com um gesto que mesclava precisão ferroviária e gentileza inglesa.
O vagão estava cheio, mas o clima era de biblioteca nobre: vozes contidas, taças que se tocavam com respeito, garçons que surgiam no tempo exato.

Comecei com uma entrada de vieiras grelhadas com purê de maçã verde e crumble de chouriço — uma fusão de sofisticação e rusticidade irlandesa.
Depois, o prato principal: filet de carne local com jus de vinho do Porto e vegetais baby, perfeitamente al dente, servido com a solenidade que se dá a um prato que tem peso e passado.

A carta de vinhos era enxuta, mas precisa.
Escolhi um tinto europeu — discreto, profundo, pontual.

Parado, mas em movimento

O mais impressionante no Pullman é essa dualidade:
você não sai do lugar — mas sente que viajou.

Entre um prato e outro, olhei pela janela e vi o céu escurecendo sobre os campos da Irlanda.
Nada se movia.
E, ainda assim, senti que estava atravessando alguma fronteira invisível.
Aquela que separa o cotidiano do extraordinário.

“O trem não andava. Mas minha alma, sim.”

Uma chegada que dá vontade de ficar

A sobremesa foi quase silenciosa:
soufflé de chocolate com creme inglês e uma pétala de hortelã fresca.
Leve, perfumado, final perfeito para um jantar onde o tempo parecia editado em slow motion.


Ao final, saí do vagão com um misto de saudade e gratidão.
Porque há experiências que não precisam de grandes distâncias — basta que saibam te levar a algum lugar dentro de você.