Na esquina de uma praça qualquer, provei o melhor cacio e pepe da vida. Com alma, simplicidade e sol romano.
Roma não te pede nada.
Ela se oferece inteira, de forma caótica, barulhenta, intensa.
Mas em meio às ruínas, praças, esculturas e scooters, descobri um pequeno altar à simplicidade: La Taverna di Fortunata.
Não há toalhas engomadas, garçons de smoking ou louças barrocas.
Mas há algo muito mais raro: verdade no prato.

Fui ao Fortunata por acaso — ou pelo melhor dos algoritmos: o da intuição.
Era quase meio-dia e a calçada já começava a ser disputada.
Uma senhora enrolava massa fresca à mão na vitrine.
Dentro, o perfume de parmesão, pimenta e azeite quente me puxou como uma promessa.
Uma mesa de rua, um ritual improvável
Consegui uma mesa na calçada, sob uma sombrinha bege manchada pelo sol.
Pedi água com gás, vinho da casa e cacio e pepe — simples assim.
Nada de “molho trufado”, nada de mise-en-scène.
O prato chegou rápido.
Fumegante, generoso, honesto.
O tipo de comida que não quer impressionar — quer acolher.
O primeiro garfo foi o suficiente.
A massa, feita ali mesmo, al dente com dignidade.
O molho, só queijo e pimenta — mas com a proporção exata que só quem cozinha com o coração entende.



A roma que se saboreia
À minha volta, turistas, locais, garçons gritando nomes e pedidos.
E eu ali, no meio de tudo — mas também em silêncio.
Com os olhos fechados, sentindo o sol no rosto e o sabor de Roma pela boca.
Pedi também uma taça de tinto rústico e uma fatia de tiramisu.
Servido gelado, polvilhado com cacau, doce na medida.
Uma sobremesa que não quer aplausos — só respeito.
“Fortunata me lembrou que o luxo também pode ser servido num prato de cerâmica quente, num banco de madeira, numa rua qualquer de Roma.”
Saí com mais do que saciedade
Não tirei fotos do prato.
Não gravei stories.
Uma unica foto, e guardei cada textura na memória.E toda vez que penso em Roma, penso naquele almoço.
Porque às vezes, o que te marca não é o que foi feito para ser grande — mas o que foi servido com alma.

