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Almoço no Palácio do Grilo: Quando a Refeição Vira Performance

Por Thalita, curadora e cofundadora da VOYA COLLECTIONS

Com cenografia surrealista e pratos autorais, este almoço é uma ópera barroca servida à mesa.

Você não chega ao Palácio do Grilo — você entra nele como quem atravessa um espelho.
Um palácio do século XVIII escondido entre muros discretos no coração de Lisboa, onde nada é o que parece e tudo é propositalmente encantado.

Fui ao almoço num sábado, sem saber exatamente o que esperar.
Sabia apenas que ali se comia — mas também se sonhava.

Passei pelo pátio interno, com colunas cobertas de hera e esculturas de criaturas mitológicas.
Fui recebida por um maître com sotaque indefinível e olhar cênico, que me guiou por salões com tapeçarias, cortinas teatrais, espelhos infinitos e paredes onde o tempo parece dormir.

Uma experiência sensorial em quatro anos

A refeição é apresentada em quatro atos, como uma peça de teatro.
Cada prato vem com um título, um gesto, uma música ambiente — às vezes até uma fala sussurrada.

Comecei com uma entrada fria servida numa pedra vulcânica, decorada com flores e neblina.
O garçom me entregou uma pequena carta com um texto poético sobre o “início da criação”.

Na sequência, o prato principal: bacalhau curado com emulsão de coentro e cinzas de alho negro, apresentado num prato espelhado com talheres vintage.

E entre um ato e outro, algo acontecia:
um ator passava declamando versos de Pessoa.
Uma bailarina descia a escada.
Um candelabro se acendia sozinho.

Um palácio que te olha de volta

O Palácio do Grilo não é um restaurante.
É uma obra de arte viva.

Você não fotografa. Você observa, escuta, saboreia, desacelera.
O vinho é natural, servido em taças com formas irregulares.
A sobremesa vem com uma vela.
O café chega com um pequeno espelho.

“Ali, cada garfada é um gesto. Cada gole, uma escolha estética.”

Saí com a sensação de ter participado
O almoço terminou como começou: sem pressa.
Fiquei mais um tempo no jardim, observando folhas caírem em câmera lenta.
E enquanto Lisboa voltava ao som das buzinas e dos elétricos, eu levava comigo uma única certeza:a arte também pode ser servida.
E o surreal, quando bem apresentado, alimenta mais do que o estômago — alimenta o imaginário.